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5 de Junho de 2026

DIA DO AMBIENTE

Alterações do Clima

 

 

 

Palestra proferida em 2006 no Dia do Ambiente no Palácio Valenças pelo ilustre meteorologista Anthímio de Azevedo a convite da Associação de Defesa do Património de Sintra, na Sessão Comemorativa do XXV aniversário desta Associação

 

 

As nossas vidas são curtas e demasiado agitadas para darmos conta do evoluir do clima.

 

Em Junho de 1981, há 25 anos, tivemos uma vaga de calor que levou os termómetros a treparem para os 40º Celsius: 41,5º C no Jardim Botânico em Lisboa, 43º C no Aeroporto da Portela de Sacavém e 45º C em Alvalade do Alentejo.

 

Mas tivemos agora outra vaga de calor que foi apregoada como sem precedentes.

 

As temperaturas foram altíssimas e no fim do Verão, foi registada uma temperatura acima dos 40º C em Alvega, a norte do Tejo (pormenor que não deve ser esquecido!).

 

O clima está a mudar. Vejamos o que sabemos do clima, no Hemisfério Norte, esta metade da Terra em que nos encontramos.

 

Através de amostras de gelo da Groenlândia podemos observar 15.000 anos de evolução do clima no Hemisfério Norte. Há cerca de 14.500 anos começou um período muito frio, em que de 32,5º C abaixo de zero, durante e ao longo de 1.700 anos chegou-se ao mínimo de 48º C abaixo de zero. Foi o Younger Dryas. Por volta de 10.200 anos atrás a temperatura começou a subir. Foi o que se passou há 1.300 anos, no período designado Tempo Quente da Idade Média mas há 1.400 anos começou um período seco, que durou 1.150 anos: 250 anos de seca, que coincidem com o colapso da Civilização Maia: um povo agrícola, tão evoluído, ou mais, em astronomia, que o povo egípcio.

 

De amostras de gelo da Antárctica podemos concluir o que se passou em 420.000 anos. Subidas e descidas: das concentrações de CO2 (anidrido carbónico), de CH4 (metano), de variações da temperatura, em graus Celsius.

 

É do maior interesse observar o período Émiano, entre 130.000 anos e 115.000 anos. Foi um período com comportamento térmico semelhante ao Holocénico em que vivemos, (e que começou há 13.000 anos), mas com menor concentração de CO2 (que no Holocénico temos feito aumentar aos saltos).

 

No Émiano a temperatura desceu regularmente; no Holocénico não tem comportamento estável, mas permite-nos localizar, há cerca de 15.000 anos, subida regular, o que leva a entender a figura bíblica do Dilúvio como um relato de inundações que os povos de então não sabiam donde vinham.

Há cerca de 25.000 anos o Atlântico Norte esteve gelado até à latitude da Normandia, no noroeste da França.

 

Até há cerca de 15.000 anos terá havido icebergs ao largo da actual Costa Oeste de Portugal.

 

Temos notado a variabilidade climática ao longo dos tempos, mas em períodos de milhares de anos.

 

Há cerca de 5.000 anos o Deserto do Saara era uma região agrícola próspera, verde e com lagos. Em 500 anos, cinco séculos, transformou-se no deserto que é e que está a aumentar para Sul e para Norte.

 

Em 1981/83 realizou-se um projecto que juntou Portugal, Espanha, França, Itália, Grécia e Turquia. Chamou-se MEDALUS, sigla de Mediterranean Diversification ADN Land Use (diversificação mediterrânea e uso da terra).

 

Pretendeu-se verificar exactamente a propagação do Deserto do Saara para o Sul da Europa e concluiu-se que a linha de risco era: Oeste da Turquia, grande parte da Grécia, Sueste da Itália e Sicília, Sueste da Sardenha e quase a metade sul da Península Ibérica. Em 1983 a linha de risco já passava a norte do rio Tejo, onde se encontra Sintra. Onde passa esta linha em 2006 com tantos incêndios? Estamos perante uma acção antropológica.

 

Entretanto, os movimentos astronómicos processam-se. A Terra move-se em torno do Sol e a precessão dos equinócios progride com uma volta completa em cerca de 23.000 anos: 230 séculos, 1º34` por século.

 

O desvio entre os eixos das ápsides e dos solstícios é já de 30º. Os dois eixos coincidiram há cerca de 20 séculos, 2.000 anos. Daí para cá o equinócio e a Primavera ocorrem cada vez mais cedo tal como o florir das plantas e a chegada das andorinhas. O relógio astronómico não pára.

 

O clima da Terra tem estado sempre a mudar a uma escala astronómica, que não permite ao ser humano senti-la.

 

Mas o homem, com as suas aventuras ambientais, tem estado a acelerar a evolução do clima.

 

Desde a Revolução Industrial, no fim do século XVIII e começo do século XIX, temos vindo a aumentar a concentração do CO2. Os resultados estão à vista.

Realizaram-se reuniões sobre o clima em Montreal, no Rio de Janeiro e em Kioto. Os cientistas participantes mostraram os riscos. A nossa acção antropogénica, os forçamentos antropogénicos, com gases de efeito de estufa, aquecem a Terra a uma razão de cerca de 2W/m², o que equivale a duas lâmpadas de 1 W em cada metro quadrado: duas lâmpadas daquelas pequeninas que usamos no Natal, acesas em cada metro quadrado da Terra. Parece pouco, mas os forçamentos pequenos, persistentes, têm efeito superior a uma erupção vulcânica.

 

Os gelos da Terra estão a derreter de tal modo que as coberturas de gelo, em qualquer parte da Terra estão já bastante reduzidas.

 

Por exemplo: no Pólo Norte, o urso branco, um nadador exímio, mas pouco resistente a nadar, afoga-se porque já não tem bancos de gelo contínuo e tem de nadar de bloco para bloco; as ursas brancas quando engravidam, preparam uma toca no gelo, entram em hibernação e têm as suas crias, duas normalmente. Mas as águas agora sobem, inundam as tocas e afogam mães e crias; os pinguins da Antártida, deixam as suas crias em terra e vão ao mar recolher comida. Mas as fracturas do banco de gelo obrigam a desvios e a demoras de dias, que estão a custar a vida particularmente às crias famintas.

 

Na Groenlândia no Verão de 2003 sucedeu que subitamente o gelo cedeu numa ravina e escorreu em avalanche.

 

Kioto foi a terceira tentativa. Mas o que esperar quando se fixou que um país poluidor pode contribuir para o desenvolvimento dos países pobres não poluidores até o poluidor deixar de poluir?

 

O clima está a mudar. Naturalmente. Que o Homem não acelere esta mudança.

A Península Ibérica terá problemas sérios de falta de água no futuro, porque a temperatura está a subir e haverá menos neve nos picos.

 

A investigação da evolução provável do clima leva-nos a concluir que os fenómenos extremos têm tendência a ser cada vez mais frequentes e mais violentos, ou seja: calor e frio, secas e inundações, tempestades mais frequentes e violentas.

 

O microclima de Sintra também está a sofrer os efeitos das alterações do clima.

 

 

Anthímio de Azevedo

 

adps.pt  -  adpsintra@gmail.com

 

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